Derrotado na disputa pelo Senado em 2018, o ex-deputado federal Alex Canziani se viu sem mandato eletivo pela primeira vez em 30 anos. Antes, foi duas vezes vereador, uma vice-prefeito de Londrina (PR) e deputado federal por cinco mandatos consecutivos.

Advogado por formação, o político resolveu explorar um novo filão, se lançando no concorrido mundo dos cursos, palestras, treinamentos e mentorias, o universo do que convencionou chamar de coach. E o que Canziani pretende ensinar? Ora, como ganhar uma eleição.

“Tem marketeiro que faz curso, tem advogado que faz curso, tem pessoas que de alguma forma trabalharam em campanha que faziam curso, mas não tinha ninguém efetivamente com experiência, que conhecesse as dores de perder e ganhar uma eleição”, conta o ex-deputado em entrevista à CNN.

Ele afirma que a ideia de enveredar por esse caminho surgiu de uma conversa com o médico e escritor Roberto Shinsyashiki, um dos palestrantes mais conhecidos do país. “Fiquei 30 anos na política, estou saindo agora, depois de oito mandatos, tenho uma experiência que eu gostaria de passar adiante. E ele me orientou a fazer palestras e eventos sobre isso”, diz.

Neste momento, Canziani está na prospecção de possíveis estudantes. Para tanto, utiliza de um recurso comum a corretoras de investimentos e outros setores do mercado financeiro, a chamada “geração de lide”.

Pelas redes sociais, o deputado convida interessados a conhecerem “o método que me elegeu oito vezes seguidas”, entrando em seu site e fazendo o download do ebook Guia Passo a Passo para ser eleito – Mesmo sem experiência.

Os interessados fazem um cadastro e informam nome e e-mail, formando a lista de transmissão a partir da qual será enviado em breve o convite para a inscrição no curso à distância, que é pago. Os inscritos também são convidados a ingressar em um grupo exclusivo no WhatsApp. O ex-deputado garante que o valor que será cobrado ainda não foi definido.

“O curso será lançado no final do mês. E o pagamento poderá ser feito no cartão de crédito, à vista ou parcelado”, explica Canziani à CNN, que não se define como um coach, termo que vê como desgastado. “Me vejo como mentor.”

O público-alvo do curso, naturalmente, são interessados em concorrer a mandatos de prefeito e vereador nas eleições de 2020. O ex-deputado disse que a sua intenção com o curso é dar as ferramentas da estratégia eleitoral a pessoas bem intencionadas e interessadas em ingressar na política, transformando-as em “candidatos de alta perfomance”.

Case de sucesso

Em 2018, após cinco mandatos na Câmara, Alex Canziani decidiu buscar uma cadeira no Senado, pelo PTB, e acabou ficando em quarto lugar.

No mesmo período, apoiou a campanha da filha Luísa Canziani por uma vaga na Câmara. A advogada de 22 anos foi eleita deputada federal com 90.249 votos.

Alex Canziani

A deputada Luisa Canziani (PTB-PR)

Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

O político acredita se tratar de um case de sucesso que mostraria seu talento para planejar também campanhas de outras pessoas.

“Você pega alguém que nunca foi candidata a nada, tem 22 anos e ela acaba virando deputada federal. Me dediquei mais à campanha dela até do que à minha”, garante Canziani.

E como se ganha uma eleição?

O ex-deputado afirma que pretende detalhar ao grupo “seleto” de alunos suas receitas para uma vitória eleitoral, mas adianta que sua teoria se baseia em cinco princípios.

O primeiro deles é convicção de que as eleições são vencidas pela emoção e não pela razão, ou seja, deve-se “conquistar o coração do eleitor”.

Ele também afirma ser necessário um “planejamento poderoso” mapeando pontos fortes e possíveis deficiências; destaca que candidato precisa ter uma “comunicação de impacto” e, por último, pontua que “o interessado deve arregimentar pessoas que acreditem no seu projeto”.

Fórmula falível 

Em entrevistas à CNN, os cientistas políticos Leonardo Barreto e Rudá Ricci afirmam que as lições de Alex Canziani de fato refletem alguns dos consensos da área, mas que entre esses passos e a efetiva vitória eleitoral ainda há muita coisa.

“Há conselhos que servem para todos, mas algumas coisas que ele fala são clichês. Então, a fórmula não pode se resumir a isso, é preciso mais”, afirma Ricci, presidente do Instituto Cultiva, que explica que há uma vastidão de nuances que variam de acordo com os cargos em disputa e as características das cidades.

Leonardo Barreto alerta para o fato de que as candidaturas bem sucedidas geralmente tem algo que falta aos novatos: o apoio em uma entidade ou comunidade.

“O mais importante para que a pessoa seja eleita é a instituição que a recruta, porque ali tem uma estrutura para trabalhar por ela”, diz o cientista político, em referência a instituições como igrejas, sindicatos e partidos.

“O cara que entra sozinho e não tem grana, não é um empresário, a chance de ele conseguir é muito pequena”, alerta.

Investimento de risco

Em geral, conta Barreto, quem tem sucesso preenche um de três requisitos: ou é muito conhecido, como um artista ou ex-esportista, ou é referência em uma região, o chamado “deputado geográfico”, ou representa um grupo social, religioso, ideológico ou uma causa – um “deputado de nicho”.

É a partir dessa conjunção um tanto rara de fatores que entram as lições de comunicação – e segundo o cientista político, na maior parte das vezes, para disputar com outras pessoas mais semelhantes a ela.

De acordo com os especialistas ouvidos pela CNN, pessoas comuns que querem entrar na política dificilmente tem o suporte financeiro dos partidos, o que obriga os próprios candidatos a desembolsarem os valores que precisarão para as campanhas.

Naturalmente, já seria um “investimento” de risco. Em um ano como 2020, ainda mais. Com a pandemia do novo coronavírus, a expectativa de baixo comparecimento torna tudo mais incerto do que já era, em meio às novas tecnologias, à transformação digital e à mudança em leis sobre as eleições.

“Vivemos um momento de transição e de incerteza. Não sabemos qual será o papel das redes sociais, do contato direto, como será a primeira eleição após a radicalização da última. Será a primeira vez sem coligações [para cargos majoritários]. Há um risco ainda maior de gastar muito, não ser eleito e terminar endividado”, argumenta Ricci.

O cientista político ainda pondera que muitas das lições que servem para uma eleição de deputado federal não se aplicam às disputas municipais, sobretudo das cidades pequenas, onde há uma proximidade muito grande entre candidato e eleitor.

“No interior, pouco importa o partido político. O que as pessoas fazem é negociar com os candidatos sobre interesses muito concretos, que às vezes é construção civil, às vezes uma obra, como uma creche ou a iluminação de uma rua. Às vezes, é um até um emprego para uma pessoa conhecida”, explica Rudá.

Leonardo Barreto cita a teoria da seleção natural, de Darwin, e classifica a corrida eleitoral como um investimento de paciência. “Quem quiser entrar nisso tem que entender que essa é uma das atividades mais competitivas que existe. Se for isso que você quiser, deve pensar que se trata de um projeto de longo prazo”, conclui.

CNN BRASIL

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